Because we care

Publicado: 24/03/2010 por Estêvão em Games
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Esse post é para os gamers que desde que ligaram um console pela primeira vez tiveram dificuldades em encontrar alguém que desse a mínima para suas conquistas com um joystick.

Anime-se, sua fantasia se tornou realidade, sua pequena criatura triste e carente.

Finalmente uma substituta àquela mãe ideal que você nunca teve, que largava o trabalho para ouvir pacientemente suas peripécias digitais.

Xbox “Sim, sim, mamãe está orgulhosa” Live realiza esse sonho através de Gamerpoints.
Para quem não sabe, Gamerpoints não servem para nada e são ganhos ao completar Achievements. Achievements são feitos específicos realizados num videogame. Videogame é aquilo que você joga para se divertir. Se divertir é aquilo que você gostaria de estar fazendo enquanto caça Achievements.

Recompensas insubstanciais por tarefas monótonas não estão restritas ao console da Microsoft. Desde 2007 jogos com o selo “Games for Windows” contam com o mesmo sistema de pontos; Sony implementou os troféus no PS3 em 2008, com a opção de exibir suas “conquistas” no Twitter e Facebook; Sports Resort para Wii teve seus “Stamps” e Endless Ocean: Blue World tem “Titles”, ainda que limitados ao jogos em si.
E não vamos nem começar com os jogos do Facebook.

O sucesso desse sistema surpreendeu até mesmo as empresas de jogos que incluíram a “função” apenas como um adendo curioso. Atualmente a Microsoft leva isso bem a sério, impondo diretrizes estabelecendo número mínimo de pontos e achievements para os desenvolvedores, com limites também para add-ons.
Hoje, graças a esse empenho, há pontos para tudo, especialmente para tarefas integrais ao jogo (por exemplo, jogar);

Subiu de nível? Pontos. Matou alguém? Pontos. Passou de fase? Idem. Pegou todos os pontos? Isso também vale pontos. Não usou continues? Pontos de novo. Usou continues? Mais malditos pontos! Assassin’s Creed 2 dá pontos por você ter nascido! E quando não é um “Apertou Start!” é algo envolvendo repetir uma ação tediosa até seus polegares caírem.
Isso me lembra aquelas competições para crianças onde todas ganham prêmios no final.

Esses sistemas de pontos são exemplo de pura tautologia. Não há um fator de entretenimento associado à sua obtenção, são coletados por que são pontos, feitos para serem ganhos.

Há conquistas que também nos fazem suspeitar que os estúdios, ou melhor, o inútil que é pago para criar conquistas (imagino que esses pagamentos consistam de bananas) está sem mais ideias e atingiu o fundo do poço e furou o cano de esgoto. E o cheiro está insuportável!

Vou guardar meu martelo da intolerância por um momento.

Competitividade é algo inerente ao ser humano desde que Ugh retornou à vila com um mamute maior que Ogh e descobriu que isso o tornava mais atraente para as fêmeas da vila (ainda que fisicamente elas não fossem muito diferentes de Ogh).
Placares de pontos existem desde do surgimento dos videogames na época dos fliperamas e seus placares de pontos com 3 iniciais. Estes provavelmente importados dos placares dos “jogos de verdade”, que por sua vez inventaram a pontuação porque achavam que as coisas ficavam mais interessantes se pudessem ter alguém para zombar ou sacrificar no fim do dia..

Um tempo atrás li no Kotaku uma matéria sobre o Happy Button. É uma máquina de arcade que conta quantas vezes você consegue apertar um botão em 10 segundos. No final, ela mostra 4 pontuações; a sua, uma pontuação abaixo e uma pontuação acima da sua e a maior pontuação do jogo. De acordo com a equipe que desenvolveu a máquina, felicidade é saber que você é melhor do que outra pessoa em alguma coisa e saber que ainda há espaço para melhora.

É um dos jogos mais populares da região. “Gamers” desenvolveram técnicas para apertar o botão mais de 10 vezes por segundo, até a data do artigo, o maior número de apertos era 256. Estamos falando do Japão onde temos acesso a jogos como Aquarian Age Alternative.

Melhor pegar aquela marreta de volta…

Um momento Estêvão!”, intercede Gustavo. “As pessoas gostam de pontos. Qual o problema? Não vejo você criticando de futebol, boliche ou curling.
Ah, ainda te devo o dinheiro que você me emprestou para aquele jogo.

É. Gostam. Mas acho que não deviam (apertando X rapidamente para me desviar das pedras jogadas em minha direção).

Deixem-me explicar melhor.

Games evoluíram, ficaram mais complexos e variados. Contam histórias épicas e imersivas e necessitam em média de 8 horas para serem completados. A experiência oferecida por videogames atuais é bem mais rica que, por exemplo, Pac-Man. Após investir quase uma dezena de horas num jogo, jogar no nível Difícil para ver um final levemente diferente, explodir a estrela da Morte, descobrir que minha esposa estava no meu braço biônico, matar Hitler (mazel tov) e tantas outras tarefas, eu não preciso de um sistema de pontos subjetivos me dizendo quão bem eu fui. Eu joguei o jogo sabe? Eu estava lá. Me divertindo.

Quanto aos jogos de verdade, esses jogos são competitivos. É preciso saber quem perdeu. Não só isso, geralmente há algum tipo de recompensa associada; medalhas, dinheiro, ou não ser sacrificado no final do dia.
Para que fim, um ávido caçador de “Conquistas” e “Troféus”(virtuais) está se se esforçando? Admiração/aprovação alheia?
Sério mesmo?

Mas há esperança para a raça humana.
Entre donos de consoles com sistemas de pontos o sentimento majoritário é que estes são apenas um elemento curioso em seus jogos. A minoria restante (algo em torno dos 20%) fica dividida entre desprezo e devoção.

Também parece estar surgindo uma avanço, ambos Mass Effect têm Achievements que resultam em diversos tipos de bônus; como aumento de saúde, maior dano com armas, ganho mais rápido de Xp, etc.

Os desenvolvedores têm em mãos um ótima ferramenta para incentivar o gamer a jogar de forma desafiadora (jogue com as orelhas), inovadora (jogue the Sims como um serial killer) ou mesmo recompensá-lo por ter realizado algum feito verdadeiramente notável (como zerar esse jogo).

No momento o que se tem é um meta-jogo dentro do seu jogo, que até lembra ele, só que menos divertido. São simplesmente despejados um balde de “feitos” que ninguém daria a mínima, equivalentes a troféus de participação, mas você tem que se esforçar para ganhar.

É como o prêmio de melhor traqueostomia improvisada. Num concurso de tortas. E o sujeito nem estava engasgando.

Estêvão

“Quem vive de ponto é costureira”

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comentários
  1. Gustavo disse:

    Excelent post, Estêvão! Está de parabéns.

    Só de você começar Heavy Rain ele te dá um troféu, agradecendo por mostrar suporte ao “drama interativo”. XD

  2. rafthehay disse:

    Excelente post!

    Eu compartilho troféus no Facebook. Acho legal ver em que pé estão meus amigos que jogam, e com isso compartilhar também que jogo estou jogando ou o que estou fazendo. Além disso, gosto de ver as artes e nomes dos troféus, alguns são criativos e engraçados.

    Agora, ficar caçando achievements e high scores não é a minha praia. Devem dar algum senso de realização, mas pra mim qualquer coisa que desvia da diversão do jogo, a menos que seja pra, sei lá, habilitar artes conceituais, que eu gosto bastante, não vale a pena. Não vale a pena se matar para ser o melhor num game, até porque pra cada high score seu tem 500 japas melhores e 2 coreanos melhores que esses japas.

    Games só me tiram o sono porque só tenho como jogá-los à noite. :)

  3. thisisbhering disse:

    Rápido exemplo de porquê achievements são uma estupidez:

    Em Bioshock 2 há uma little sister cuja história, contada no website viral, fez tanto sucesso que ela e seu Big Daddy foram incluídos no jogo.

    Mero detalhe, ela é loura (little sisters tradicionalmente possuem cabelos pretos). Mas faltou tempo para customizarem o cabelo dela, deixando-a com a mesma aparência das demais little sisters.

    Tiveram tempo de criar 50 achievements para Bioshock 2.

  4. harrysickboy disse:

    Opa ..Estevão de volta ao blog com tudo.!!Belo retorno.
    Esse post me lembrou da época que eu lia a revista oficial do xbox360, que entre uma matéria e outra tinha mil e uma formas de destravar achievements.Os caras que escreviam a revista e alguns leitores eram “Achievmentaholics”, tinha até dica de que jogo comprar baseado na moleza de destravamento de certos achievements.
    Tipo : compre jogo ‘X’ (ele é uma merda ) porém vc conseguira 100gs só de terminar a primeira fase.E ainda tinha um ranking na revista !!!
    Ou seja, tinha gamer que tava mais preocupado em desbloquear achievement desvairadamente, deixando o ato de apreciar o jogo para um segundo plano.Mas isso não é exclusividade dessa geração, tinha amigo meu que era aficionado com esse papo de ranking na era do ps1 mesmo, chegando a mandar seus memory cards pra certas revistas para poder aparecer no ranking mensal das mesmas.

  5. Rebeca disse:

    Entre donos de consoles com sistemas de pontos o sentimento majoritário é que estes são apenas um elemento curioso em seus jogos. A minoria restante (algo em torno dos 20%) fica dividida entre desprezo e devoção.

    Eu tô na galera do desprezo! heuehuehuh

    Sério, não vejo a mínima graça nos achievements, mas entendo quem gosta. Agora, acho que justamente por ter quem gosta e quem não gosta, os jogos podiam vir com uma função pra vc desativar os troféus. Acho mó besta quando tô jogando e de repente “Plim! Você destravou o troféu XYZ!”. xD

    • thisisbhering disse:

      Wow, eu fui citado!

      Quer parecer confiável? Insira estatísticas fictícias nas suas frases :P

      Falando sério, é um número aproximado, depois de fuçar em fóruns de games e achievements. Claro q a margem de erro deve ser de uns 10%.

      Na verdade, fiquei bem surpreso com a quase ausência de defensores de achievements.

  6. Gustavo disse:

    É mesmo, normalmente você só vê os casos mais extremos, os de viciados em achievements.

    Rapidinho, to quase conseguindo o “Defeat 30 enemies with the Gatling gun” no RE5.

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